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quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Voto ou não voto?



Embora não tenha a intenção, por ora, de fazer uma retrospectiva de ano, o princípio de um fim gera algo quase incontrolável de contabilizar os dias que faltam para o “novo” e o “inesperado”. Mesmo que o inesperado já se configure como bem esperado e nada brilhante. Cabe assim fazer um movimento retrogrado de um ano confuso e desajustador de algumas certezas. O primeiro desses grandes desajustes foi a lição de que certas certezas que pareciam ser inabaláveis são uma grande piada de mal gosto.  Há como confiar na certeza? Uma vez que haja a dúvida é prudente nunca confiar plenamente na certeza como disse Descartes um dia. Saindo do bê-á-bá cartesiano, na verdade acreditei ter calcado boas bases que não dessem margens para dúvidas a minha estrutura libertária. Mas, nesses tempos tempestuosos os mares que banham o Brasil fez agitar muitas ondas e a mais perigosa delas, foi e é: a onda conservadora.  Algo já vinha tomando forma desde 2013 e ano após ano chegamos em  2018, ano de eleição, com a mais desastrosa e perigosa onda de falas conservadoras, Essas falas ganharam amplitude e corpo e se personificaram em um homem cujas palavras e ideias atingem os direitos de fala, expressão e vida de muitos que vivem em nosso país. O avançar desse tsunami conservador, ganha corpo e representatividade na figura horrenda de Jair Messias Bolsonaro, e a ameça de um governo presidido por esse homem me fez pensar: Voto ou não voto?. Votar para mim não era uma opção no fazer político, a democracia representativa era simplismente incompatível com minhas ideias libertarias... Mas diante de uma ameça absurda que representava e representa Bolsonaro, tive que  repensar algumas posturas políticas, mesmo que temporariamente. Decidir apoiar um grupo político pode ser "fácil" e até mesmo o segredo para preencher e dar sentido à vida de muita gente. A militancia partidaria... Ocupar os espaços, fortalecer ou ampliar a célula do partido. Ser orgânico e integrar os movimentos sociais com intuito de copitar mais integrantes em nome do fortalecimento do partido... Romantico e nostálgico, lembra as táticas da Igreja no Renascimento e os grupos nascidos na Reforma protestante, lembra a catequese. Lembra também colonização, mas agora convencida por meio de teses de marxistas leninistas, social democratas, progressitas...  Bonito, orgânico, mas nada libertário. Definitivamente não escolhi isso para mim. Mas dentro desse contexto absurdo de um regime de representatividade onde um louco, fascista e perverso tem vez e pode facilmente destruir a árdua construção de nossa frágil democracia. Obviamente e diante do contexto, tive que decidir dolorosamente votar... Entendo que o voto foi uma grande conquista das irmãs sufragistas do passado. Todavia, ainda concordo com Emma Goldman quando diz “se votar fizesse alguma diferença, fariam-no ilegal.”. Defendi e defendo o voto nulo. Entendo que anular em uma eleição é algo significativo e simbólico. Representa descontentamento, insatisfação, o protesto. Mesmo que o nulo não anule uma eleição. Votar nulo não é indiferença ou “tanto faz”, ele pode ser o contrário do que os famintos partidários por votos pensam. O voto no contexto de uma democracia representativa, na verdade, faz pouca diferença. Votamos nas assembleias, nos atos de rua, nas lutas diárias em uma democracia direta e participativa. E é a esse voto que digo: sim. Votamos quando respiramos fundo para ganhar força e voz quando uma injustiça se faz a nossa vista. O voto é escolha, e escolhemos o tempo todo. Em nosso grito, em nosso suor, em nossas lutas, votamos! As mudanças que queremos dificilmente virá de um representante. A mudança que precisamos vem povo, das demandas de vida de um povo. Como diria os meus amigos anarquistas "Acorde todo dia e vote em si mesmo!" Vote com sua comuna, com o seu bairro, com sua federação. A luta e a real mudança só pode vir do poder popular. Mas.. Coloco a pergunta que faço aos meus amigos votantes dos pleitos eleitorais partidários: Como votar em alguém eleito e apoiado pelos grandes capitalistas neoliberais? Como e porquê compactuar com isso? Como se pode se enganar com isso?!  Entretanto e, portanto, nessas eleições de 2018 escolhi votar para presidente.  Votei no intuíto de alterar um quadro que já estava decidido e compartilhado por boa parte dos brasileiros. Votei contra um discurso perigoso e preocupante. Votei contra a perversidade e a loucura,  E esse foi o primeiro ponto que me fez decidir apoiar e estar junto a um grupo que não acredito. Não acredito que Haddad represente mudança, mas sim permanência. E entre a permanência e a loucura que pode levar a um caos incontornável. Votei na permanência. A permanência de um status quo que está a mais de uma década de acórdões com capitalistas neoliberais. Contudo,  representavam ainda a oposição possível para as eleições em Outubro. Diante disso, temporariamente, a certeza de não votar em eleições foi fragmentada. Mas qual certeza não está sujeita a isso? E votar foi uma decisão séria e real. Mesmo que no fundo da minha convição política sobre voto de uma eleição representativa  não fosse mudar em termos estruturais muita coisa. Enfim...


Agora me pergunto: será que as certezas que estabelecemos ao longo da vida são abaladas com as grandes ameaças? Um fascista teria esse poder me convencer a votar contra ele? Sim. Diria mais, um fascista é capaz de muita coisa, e o povo em buscar de se defender é capaz de muito mais. 

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Entrevista com Wagner Uarpêik sobre o conto Libertália.





"Necessária é também uma inclinação para enfrentar questões que hoje ninguém se atreve a elucidar; inclinação para o proibido; predestinação para o labirinto”. (Friedrich Nietzsche em  O anticristo)















“Libertália: Pirataria Anarquista & Anarconinjismo” é um texto ficcional, um conto publicado por Wagner Uarpêik no final do ano passado. Ele promove boas reflexões sobre um suco que endossa cada vez mais as formas de protestos, ativismos e práticas políticas em nossos dias: como diria John Zerzan, “O suco de hoje é com anarquia”.

Conhecemos a proposta do clã abordado na história em dois manifestos: o Manifesto Anarconinja e o Manifesto Anarcopirata. Ambos despontam na origem da “Irmandade Libertália”, que nos oferece um problema e um culpado: a civilização é “o maior erro da humanidade”. Erro que acarretou efeitos colaterais como o "tripé sedentarismo-propriedade-burocracia”, engrenagens fundamentais de toda manifestação civilizacional.

Wagner nos apresenta a interessante metáfora do urubu-de-cabeça-preta como “efígie de astúcia, oportunismo e vagabundagem” – modelo de atuação dos membros de Libertália. Nada mais sagaz que nos lembrar que os urubus, em seus voos, são capazes de planar e com isso não gastar energia. Eles nos ensinam a distribuir nossa energia e usá-la somente quando necessário. Ao que parece, essa é a nobre saída dos agentes de Libertália, liderados por Julian Lobstein: um “jogo sujo” a serviço da liberdade de se autogovernar. Nas trinta e cinco páginas do livro há um interessante e atual suco anárquico que trata de temas controversos como “zonas de autonomia temporária”, guerrilhas armadas e manifestações Black Blocs.

Libertália não poupa fortes e irônicos ataques ao trabalho, à civilização, ao capitalismo, à luta armada, ao crime não ideológico, aos “parasitas capitalistas” e ao “franciscanismo esquerdista”. Vale a pena conferir. E digo mais: existe no livro um eixo que norteia questionamentos de natureza mais, digamos, existenciais – afinal, a vaidade de “fazer justiça” pode ser considerada um dos eixos temáticos da obra. É necessário deslocar-se das preocupações ideológicas para perceber um cerne que perpassa as entrelinhas de Libertália e parece mostrar-se de forma mais acentuada nas últimas linhas do conto. É sobre isso e muito mais que converso com o autor.

Em Libertália há um intenso e incontestável teor político. Afinal, trata-se de uma proposta fictícia ou não?

Libertália é uma criatura fantástica capaz de desencadear efeitos concretos, “realistas”. Numa época em que política e ficção copulam e fazem filhos cada vez mais discretos e intrincados, Libertália está, digamos, na moda.

Os dois manifestos presentes no conto são, do ponto de vista anarquista, perfeitamente lúcidos. Eles informam e tendem a instruir grupos mais jovens interessados nas ideias anarquistas. Não é provável que os leitores interpretem seu conto como um manual tático para burlar o “sistema”? O que podemos pensar sobre você como autor? Você compactua com as estratégias dos manifestos?

Assim como não é necessário ser anarquista para escrever sobre anarquismo, os personagens de uma história não devem ser depositados na conta do autor – bem, pelo menos não automaticamente, por transferência, a maneira mais fácil e preguiçosa, sem filtros, lupas e certos instrumentos cirúrgicos imprescindíveis para uma dissecação da criatura que, aliás, necessariamente, por milhares de rios (subterrâneos, inclusive), desemboca na vida do criador. 

É um destino inevitável, mas que, no caso de Libertália, deve ser conquistado. A obra deve falar mais do que o obreiro. 

Anarquizar e libertalizar jovens e adultos susceptíveis é um dos efeitos colaterais mais perigosos de uma fórmula criada para tratar de justiça, liberdade, controle, conspiração e outras metástases e inflamações do organismo social e pessoal. É a velha história do remédio que vira veneno, sabe?: depende da dose e do paciente. O criador da fórmula pode garantir sua eficácia caso ela seja usada adequadamente. Mas como diabos poderia impedir que seus hospedeiros a ignorem, transformem ou simplesmente desperdicem sua inteireza através de um uso excessivamente ingênuo, pessoal, limitado?

Minha vó e minha tia sugeriram que as capas das próximas edições de Libertália venham com avisos como: “não recomendável para menores de 25 anos”, “não tente fazer isso em casa”, “atenção: leia direito”...

Você lançou o seu livro meses atrás. Como foi recebido até agora?

Para minha surpresa, recebi mais críticas e elogios de desconhecidos do que de amigos e próximos. Uma ativista espanhola se ofereceu para me ajudar a lançar o livro em Barcelona – ela acredita que, a médio ou longo prazo, Libertália se tornará tão influente e “renovador” quanto Zonas Autônomas Temporárias ou El Libro Rojo de Yomango [risos]. Uma estudante de letras mineira gostou dos desafios morais da trama e celebrou seu “minimalismo denso e contundente”. 

Por outro lado, um escritor de zines formado em direito e apaixonado por romances me enviou um ensaio tão chato, longo e professoral quanto uma peça judicial, me intimando a explicar fatos supostamente ambíguos e obscuros da história, sentenciando – ideologicamente e/ou estilisticamente – a mim, Lobstein e até Daniel Liberalino! (meu  honroso prefaciador), e sugerindo como eu devia ter escrito o conto [risos] – que, aliás, para o zineiro devia ter sido um romance [risos]. 

Um aparente eleitor de Bolsonaro acusou meu livro de “ensinar as pessoas a praticarem crimes” – e avisou que “isso não vai ficar assim!”. Uma petista solicitou que eu parasse “de sabotar a luta de classes” e que fosse “trabalhar de verdade”. [risos]

Um amigo filósofo viu distopia antimilitante em Libertália. Uma amiga militante pediu que eu ensinasse os truques libertalianos num evento...

Enfim, são elogios, apostas, delírios, paradoxos, piadas prontas e ironias involuntárias como essas que fazem a vida valer a pena. 

Contudo, apesar da dificuldade cada vez maior que as pessoas têm de realmente compreender o que leram (ou deviam ter lido!), frequentemente certas flores e espinhos de Libertália têm chegado nos endereços certos pelas vias certas, ou seja, têm agradado e ferido aqueles que naturalmente devem agradar e ferir. Sinto que a maioria das pessoas não foi capaz de andar pelo livro sem se cortar. Vejo dor e raiva em seu silêncio. 

Meu amigo e escritor Daniel Liberalino, um dos poucos que, como você, embarcou pra valer no livro, me deu um ótimo e iniciático conselho: “é preciso escolher entre escrever e ter amigos”. Eu concordo em parte, pois escrevo para (des)encontrar amigos. E apesar de tantos sintomas, carajo, a verdade é que um escritor nunca sabe como uma história vai acabar ou começar dentro de cada um. Ah mistério maravilhoso! – e terrível!

Ao que parece, os justiceiros de Libertália estão em uma categoria diferente do Bando Bonnot, por exemplo. A proposta adotada pelo clã Libertália não inclui pistolas, e sim a prática de sonegação de impostos e multiplicação de criptomoedas, por exemplo –  “crimes ideológicos”. O ataque ao sistema pelas brechas, pelo lado de dentro, pelas portas menos vigiadas. Trata-se de uma apologia ao crime ou de uma contestação ao que já existe? Sonegar no Brasil não seria quase uma redundância? Libertália faz apologia ao crime?

Há maneiras mais eficazes de defender o crime [risos]. A irmandade Libertália é um espelho em que podemos mirar diversas estirpes humanas.

O que mais me surpreendeu no livro foi o encontro de duas questões tão humanas: o idealismo e o realismo. A partir da segunda página, percebi que havia questões não somente ideológicas, mas também sobre a condição humana em si. Você diz que a militância de Lobstein resultou de uma revolta que tinha “mais a ver com sua infância do que com a luta de classes”. Dessa forma, para o personagem “foi mais divertido culpar o ‘sistema’ do que a si mesmo”. Sendo assim, todas as lutas, organização e estratégias da Irmandade Libertália não perpassam só uma luta contra o “sistema”, mas uma procura por sentido?

Quando o desespero de atribuir um sentido à existência se casa com a justificação inconsciente do próprio fracasso num inimigo exterior, o suicídio (lento ou súbito), a loucura e a guerra nunca estão distantes. E, no entanto, qual igreja religiosa ou política não nasceu desse matrimônio infeliz?

No início do conto, Lobstein não passava de “um sonhador pobre, bêbado e solitário”. Ao longo da trama, ele alcança certo sucesso com a construção de Libertália. Entretanto, no fim do conto, após dois episódios –  o da família indiana e o ataque do lobo ao filhote de coelho –, Lobstein percebe que tentar fazer justiça não o fez mais justo, e que fazer justiça era sua maior vaidade. Esse conto é uma espécie de aviso de que toda luta política é incapaz de curar as piores mazelas humanas? A aflição final de Lobstein é própria da insatisfação daquele que procura? Haveria uma busca incessante que a mais utópica ideologia não consegue compensar?

Libertália nos desafia a responder tudo isso – e algo mais.

Os membros de Libertália tomam o urubu somente como um agente de limpeza externa do mundo capitalista, ou também como um agente de limpeza do que está “podre” dentro de nós mesmos?

A última vez que os vi, pareciam mais interessados em “limpar” o mundo do que a si mesmos [risos]. Mas, como diria um bom urubu, nunca é tarde para a grande faxina!


Os escritos de Wagner Uarpêik perpassam a filosofia, a literatura, e as ciências sociais. É tradutor, revisor, ghostwriter e instrutor de artes marciais. Libertália é o primeiro livro assinado pelo natalense. Site: copyrightzone.wixsite.com/wagneruarpeik 



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